terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Dom Celso, a sexualidade e Cristo que sofre em nós


Foto: Grupo Transformar

Estou lendo agora o livro "Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns - Pastor das Periferias, dos Pobres e da Justiça", organizado pelo professor Waldir Augusti e o padre Ticão, da paróquia São Francisco de Assis do Emerlino Matarazzo, da Diocese de São Miguel Paulista. 

A obra conta com 55 depoimentos e uma apresentação do teólogo Fernando Altenmeyer sobre o hoje arcebispo emérito de São Paulo, que comemorou 94 anos de idade no ano passado. O livro lançado em 2015 teve mais um lançamento na semana passada, durante o 29º Curso de Verão na PUC-SP.

Um dos depoimentos me chamou a atenção pelo caráter atual. Vivemos tempos em que as igrejas cristãs procuram se colocar no lugar do próximo, longe do preconceito e de fronte com a opressão, por meio da palavra ativa ("dabar") em que Deus se fez entre nós. Entretanto, mais de dois milênios depois, cristãos conseguem sequer enxergar os oprimidos que estão diante de si na exclusão social, étnica e de gênero do mundo em que vivemos.

É neste contexto que Dom Antonio Celso de Queiroz, um dos bispos auxiliares de Dom Paulo, fala sobre como o colegiado de bispos, formado pelo então arcebispo, enxergava a questão da sexualidade na época. Verdadeiros amigos e irmãos, olhavam do mesmo modo a sociedade, da qual a Igreja jamais deve fingir de que não faz parte. "Se hoje ainda existe esse preconceito e esta condenação, imagine naquele tempo."

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“Dias desse, li uma reportagem onde alguém publicou uma foto de um transexual crucificado. Achei interessante observar que em muitos lugares essa atitude foi considera blasfêmia. Ora, se a pessoa está sofrendo, é Jesus Cristo que sofre. Ele mesmo nos disse. Não fomos nós que inventamos: ‘quando alguém tem fome, está sofrendo, sendo perseguido, preso, sou Eu que estou ali’ (Mt 25, 35-40). 
Vejam bem, que melhor expressão de sofrimento do que a perseguição, o preconceito as dores e o desamparo a que são condenados esses nossos irmãos e irmãs. Se para nós, que a sociedade considera como “definidos sexualmente” as coisas não são fáceis, podemos imaginar que para os demais considerados como ‘fora do padrão’. Eu sei o quanto sofrem. Muitas vezes pude atender homossexuais, principalmente rapazes. E era uma época em que os padres eram muito exigentes e até mesmo intransigentes. Não compreendiam o sofrimento dessas pessoas; tudo era pecado.
Nós já tínhamos uma visão diferenciada sobre estas questões. Certa vez atendi um jovem que estava com dúvidas sobre sua sexualidade. Conversei muito com ele, dei algumas orientações e ele foi embora. Muito tempo depois ele voltou a me procurar e me disse: ‘nem sei como dizer ao senhor o que eu fiz’. Eu disse a ele que falassem sem ressalvas, estávamos ali para conversar. E ele me contou que depois da conversa que tivemos, ficou pensando que eu havia dito aquelas coisas porque era padre e tinha mesmo que dizê-las. E resolveu procurar um médico. Depois de muita conversa com o médico, foi orientado por ele, caso fosse cristão, a procurar um padre: “muitos deles compreendem bem a realidade que você vive e podem ajuda-lo. Eu soube que aqui em Campinas tem um padre muito bom para conversar sobre isso. E o padre era o senhor. Então aqui estou eu.’ 
Estou falando disso para apontar a falta de respeito que existe para com nossos irmãos e irmãs. A imensa maioria das pessoas que os condenam, nada fazem diante da morte de milhões de seres humanos que não tem o que comer, que moram jogados nas ruas, que são condenados a viverem sobre a mais penosa opressão. Isso é reflexo de uma sociedade excludente que se julga capaz de definir o que é certo e errado, bom ou ruim, bem ou mal. Se hoje ainda existe esse preconceito e esta condenação, imagine naquele tempo. Nós tínhamos, repito, uma visão diferente e acolhedora.”
 
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