terça-feira, 28 de abril de 2015

CNBB: Existe restrição em mencionar ligação com Leonardo Boff?


Foto: Reprodução/cnbb.org.br

Os bispos brasileiros estiveram reunidos entre os dias 15 e 26 desde mês em Aparecida (SP) para realizar a sua 53º Assembleia Geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Os últimos dez dias foram usados para os religiosos votarem e elegerem os novos dirigentes da conferência.

Um deles é Dom Severino Clasen, bispo da Diocese de Caçador, em Santa Catarina.

Ele foi reeleito para continuar à frente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato, a comissão que cuida da organização dos fiéis, os chamados leigos, membros do Povo de Deus que não integram o clero.

Clasen nasceu em Petrolândia, também em Santa Catarina, em 1954. Foi ordenado padre em 1982 após estudar filosofia e teologia, como de praxe. For ordenado bispo em 2005 quando assumiu a Diocese de Araçuaí (MG), antes de se mudar para Caçador em 2011.

Dom Severino é franciscano e fez seus estudos na época do seminário no Instituto Teológico Franciscano, de Petrópolis (RJ).

A OFM (Ordem dos Frades Menores) e o ITF possuem ligação com acontecimento que teve destaque não só na Igreja do Brasil, mas no mundo. Nos anos 80, o teólogo e professor Leonardo Boff publicou o livro "Igreja: Carisma e Poder" e foi condenado a não se manifestar por um ano em público pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger.

Boff acabou depois largando a batida para não receber uma nova sanção do presidente da antiga Inquisição e futuro Papa Bento XVI. A obra tornou o ex-frade um expoente da teologia da libertação após discutir a necessidade de uma Igreja mais crítica a desigualdade produzida pelo capitalismo e que tenha o poder menos centralizado no clero.

Informações

Entretanto, o instituto ligado a toda essa história não foi mencionado na notícia sobre a reeleição do bispo referencial do laicato.

O site da CNBB foi publicando notícias ao longo dos dias da Assembleia conforme os novos presidentes iam sendo eleitos. A nota sobre Dom Severino é a única da série de notícias que não informa onde o bispo estudou teologia e filosofia, no caso, na mesma época em que Boff era professor do ITF.

Entretanto, cita que o bispo cursou uma pós-graduação em administração.

Hoje, o teólogo da libertação Leonardo Boff é palestrante e escritor de renome no mundo. Participa de grupo de reforma da ONU (Organização das Nações Unidas) e forneceu material para ajudar o Papa Francisco a terminar a sua encíclica que deve ser publicada em junho.

Procurada pelo blog, a CNBB afirmou, por meio de sua assessoria, que os currículos do bispo são divulgados "de acordo com as informações que eles nos passam quando nomeados."

Segundo a nota, "no currículo de dom Severino, só constava estudo em Teologia e Filosofia, sem citar a instituição."

A biografia do bispo no site da Diocese da Caçador, por sua vez, informa onde ele estudou teologia.

A notícia sobre ele da CNBB, também por outro lado, era mais incompleta que a das outras nomeações, em geral. Não mencionava, por exemplo, quantas votações foram necessárias para a sua reeleição.

Outro bispo, Dom Jaime Spengler, eleito para a Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e Vida Consagrada, ainda teve mencionado normalmente em nota seus estudos no ITF.

A possível intenção de alguém de omitir ligação indireta com Leonardo Boff, de qualquer forma, não deixa de ser interessante de ser analisada em tempos em que a CNBB é taxada de "comunista" e apelidada de "CNdoB".

Dom Severino, a propósito, é conhecido como um bispo "neutro" nos bastidores eclesiais: nem muito tradicional, nem muito progressista e com bom diálogo entre os leigos.

Leonardo Boff, alheio a tudo isso, continua a emitir suas opiniões sobre os acontecimentos eclesiais.

"A CNBB sempre entendeu que a Igreja possui uma dupla missão: uma especificamente religiosa e outra eminentemente social", disse ele nesta terça-feira (28), em seu blog, antes de reproduzir nota publicada pela nova direção da conferência dos bispos.

À noite, o teólogo terá entrevista concedida ao programa Espaço Público exibida às 22h na TV Brasil.

Leia também: Veja quem são os 20 bispos eleitos na 53ª Assembleia Geral da CNBB

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma breve visita ao Cimento da Bresser


"Refugiados Urbanos" pode parecer para alguém apenas uma expressão usada pelo vigário do Povo da Rua, Julio Lancellotti, mas é na verdade uma descrição precisa da situação de alguns Filhos de Deus esquecidos pelos irmãos.


Não fui desta vez visitar irmãos de rua para fazer um relato jornalístico, mas apenas como um irmão que visita outro irmão. Entretanto, achei que valeria a pena compartilhar o pouco do que foi registrado no blog.

O lugar é conhecido como "Cimento da Bresser", por ficar no bairro e perto de um depósito de cimento.

Fui nesta sexta-feira (17) com o padre Julio Lancellotti, vigário da Pastoral Povo da Rua, e com a Marta e o Ederson do Bompar (Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto), os quais tive o prazer de conhecer hoje, visitar uma irmã de rua abrigada no local.

O vídeo abaixo mostra um panorama do acampamento na beira da Radial Leste:



Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
A irmã está grávida de quatro meses. Ainda não fez um ultrassom, mas acredita que irá ter uma menina. Vive em um local, conforme a foto acima, arrumado com mais cuidado e carinho do que em muitas casas.

Há o risco, entretanto, segundo Julio Lancellotti, de a prefeitura derrubar o barraco e querer encaminhar ela e o companheiro com quem vive para algum hotel ou outro local. A Pastoral do Povo da Rua tem tentado evitar que coisas do gênero aconteçam.

O secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy, já foi visitar o local pessoalmente assim como já fez com irmãos de rua pela cidade, mas as visitas não têm resultado em mudanças concretas.

Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
O irmão da foto acima - que permitiu que a sua situação fosse registrada - passou por uma traqueostomia e está com problemas na vista. Precisa continuar recebendo auxílios médicos e será ajudado pela Pastoral do Povo da Rua nesta questão.

Um mutirão de limpeza, ainda a ser confirmado, irá ser feito pela pastoral no acampamento, que não tem recebido funcionários de limpeza da prefeitura.

Foto: Arthur Gandini/IP
A situação dos irmãos de rua mostra, como dito no subtítulo, que o termo "refugiados urbanos" não é uma mera expressão.

Os sem-teto sobrevivem a uma cidade que não lhes deixa espaço e não os acolhe. O Paulistana tem noticiado nos últimos dias como a GCM (Guarda Civil Metropolitana) e Polícia Militar têm, como acontece há anos, mas com maior intensidade, reprimido moradores de rua de locais e levado seus poucos pertences embora, como se fossem lixo.

O comentário de uma moradora do local, sobre o tratamento que todos costumam receber da prefeitura, chama a atenção:

— Gente que nasceu em berço de ouro vem aqui. Por que eles tem que pisar (na gente)?

Julio Lancellotti afirmou ter sido ofendido por secretário da subprefeitura da Mooca na última semana. Censo da Prefeitura que iria verificar a quantidade de moradores de rua em São Paulo deveria ter tido a primeira parte, quantitativa, divulgada no último dia 15.

Encomendado por R$ 1 milhão à Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), não há mais previsão de publicação. Chuvas recentes teriam feito com que irmãos de rua mudasse de lugar e atrapalhado os resultados.

Lancellotti fez críticas em sua página no Facebook ao adiamento, mas as coisas seguem como estão.

Veja mais fotos do Cimento da Bresser:

Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Leia aqui mais notícias sobre os irmãos de rua

sábado, 11 de abril de 2015

O significado por trás de convocar um Jubileu Extraordinário

Papa Francisco dá os seus sinais, mas é preciso prestar atenção para percebê-los. Foto: Ansa

A convocação oficial de um Jubileu pelo Papa Francisco em caráter extraordinário - ou seja, fora do ano que deveria ocorrer - pode parecer a primeira vista apenas mais um evento católico romano tradicional do Vaticano. O último ocorreu nos anos 2000.

Os jubileus costumam ser comemorados a cada 25 anos desde o ano de 1300. Foi nesta data que ocorreu o primeiro, quando o Papa Bonifácio VIII convocou cristãos para visitarem em massa os túmulos de São Pedro e São Paulo.

O tema do último jubileu, lançado oficialmente neste sábado (11), chama-se "misericórdia do Senhor". Parece uma reflexão mais espiritual do que prática, comum na Igreja. Mas quando se tenta enxergar por trás da ações, é possível entender o que teólogo Paulo Suess disse para mim na entrevista publicada no Paulistana na última semana.

O sacerdote, ao explicar o porquê de não acreditar que Francisco é populista (entenda como alguém que joga com todos os lados e fala o que todos querem ouvir, para se manter no poder), disse-me que o pontífice latino-americano não apenas fala, mas faz o que diz, o que não é o caso de um populista.

"Ele dá sinais que às vezes são mais fortes que os próprios atos", disse Suess.

O Jubilei Extraordinário da Misericórdia foi criado no ano em que se comemora os 50 anos do encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II.

A reunião mundial de bispos e outros religiosos, que ocorreu entre 1962 e 1965, procurou dar novos ares à Igreja Católica Romana e atualizá-la ao mundo. Antes deles, padres celebravam as missas em latim e de costas para os fiéis, por exemplo.

A principal mudança foi que o concílio colocou a Igreja ao lado dos pobres, como Cristo esteve em sua caminhada.

Houve oposição na época para a publicação dos documentos e conclusões do concílio e ainda há hoje para eles serem seguidos.

Padres adorariam talvez rezar missas em latim e conheço um sacerdote que utilizou a necessidade de uma reforma na paróquia para mudar de lugar a estátua da santa padroeira e colocá-la atrás do altar, centralização pré-conciliar no ambiente eclesial.

A bula de convocação do Jubileu, "Misericordiæ Vultus (Rosto de Misericórdia)", faz referência à expressão "Remédio da Misericórdia" utilizada por São João XXIII, o papa que teve a coragem de convocar o concílio.

O Vaticano II é citado na bula como algo que derrubou as muralhas da Igreja, “que por muito tempo, mantiveram a Igreja fechada em uma cidadela privilegiada”.

Este não é o primeiro dos sinais de Francisco. Um ano após sua eleição, por exemplo, ele tornou cardeal um bispo sem idade para poder votar em um próximo conclave, Loris Francesco Capovilla.

Arcebispo emérito de Loreto, Capovilla, na época com 99 anos de idade, foi amigo e conselheiro de São João XXIII durante o Vaticano II. "Você tem a voz jovem", brincou Francisco por telefone com o novo cardeal, que ele sabe que não poderá votar no próximo conclave e, provavelmente, nem estará vivo.

Em abril de 2014, Francisco expôs na Praça de São Pedro quadros de João XXIII e João Paulo II. Os dois pontífices foram canonizados na mesma cerimônia, com suas imagens de cada lado.

São João Paulo II foi responsável por combater o avanço do ideário comunista e ateu na Europa, a extrema-esquerda, mas também foi quem desarticulou bispos e padres na América Latina que apenas queriam uma Igreja próxima aos pobres.

É a mistura de duas figuras diferentes que deu uma significação de conciliação entre lados conflituosos por trás do ato de Francisco.

A chamada "porta santa" da Basílica Vaticana deve ser aberta no dia 8 de dezembro para inaugurar o Jubileu da Misericórdia. O Papa convida todas as paróquias do mundo a, por meio de uma porta, simbolizarem o mesmo ato.

E para quem também ainda não percebeu, Francisco convida todos a perceberem que a Igreja precisa, sim, avançar.

domingo, 5 de abril de 2015

O filho do governador, o menino pobre e os cristãos


Muito se falou na última semana na morte trágica de duas pessoas, que causou dor às suas famílias.

Não cabe aqui se aprofundar nos detalhes do que já foi noticiado com exaustão ao longo da semana; faz-se a citação: o filho do governador do Estado, Thomaz Rodrigues Alckmin, morreu na queda de um helicóptero em Carapicuíba na quinta-feira (2).

Isso aconteceu no mesmo dia em que o menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, levou um tiro de fuzil no rosto de um PM na comunidade (não tão) pacificada Complexo do Alemão.

Cada caso carrega uma importância particular. No primeiro, foi o filho de um expoente do maior partido de oposição do país, e governador pela terceira vez do Estado, que faleceu.

No segundo, uma criança é morta por um policial em meio ao debate sobre a redução da maioridade penal, que pode colocar crianças pobres mais cedo na cadeia, como as que nascem, crescem e se formam em um local como o Complexo do Alemão.

Parte da imprensa noticiou a morte da criança como um acidente ou uma bala perdida. Pergunta-se aqui como um policial dá um tiro de fuzil no rosto de uma criança de forma acidental. Os policiais envolvidos na ação perto da morte serão investigados pela própria polícia, já que é deste modo que funciona o sistema da PM.

Segundo foi noticiado, a mãe também teria sido ameaçada pela polícia. Quando encontrou o filho e a maior parte de seu sangue espalhado à sua volta, teve o mesmo fuzil que matou Eduardo apontado para a sua cabeça.

O olhar dos cristãos

Os dois casos combinados, entretanto, ainda criaram uma nova questão: o quanto é dado de importância para cada uma das mortes?

Cristo nos ensina que somos todos filhos de Deus e amados por ele e, por isso, talvez a questão não seja compararmos as mortes, mas, sim, se todos dão importância para as duas vidas perdidas.

A candidata à presidência pelo PSOL no ano passado, Luciana Genro, foi quem mais se envolveu na polêmica em relação à empatia das pessoas referente aos dois casos. Perguntou ela em seu perfil no Twitter: "Tudo bem lamentar a morte do filho do Alckmin. Mas por que não lamentam também a morte do menino de 10 anos vitima de bala perdida?"

O questionamento dividiu opiniões. Críticos diziam que ela estava politizando a questão e não separando o caráter conservador, contrário aos pobres, de Alckmin, da morte do filho. Nas redes sociais, internautas reacionários também desejaram que a filha da Dilma estivesse no helicóptero de Thomaz.

Internautas que apoiaram Luciana disseram que concordam com a falta de empatia das pessoas com um menino pobre, que apenas deram importância apenas para a morte do filho do governador.

Cristo nos ensinou a olharmos para o próximo, principalmente para os mais vulneráveis e sofridos. Entretanto, muito tempo se passou entre a época dos ensinamentos de Jesus e a Igreja Católica, que se fundiu com Poder Romano e adquiriu vícios com o poder. Um deles pode ser o de seus pastores não seguirem o mesmo olhar ensinado por Jesus.

Dom Luiz Antônio Quedes, bispo de Campos Limpo, talvez precise refletir se não esqueceu o olhar ensinado por Cristo quando emite uma nota de pesar da diocese em relação à morte do filho do governador, mas não faz menção nenhuma à morte do menino do morro carioca.

Sim, hoje é dia de lembrar que Cristo ressuscitou dos mortos após sofrer em meio ao poder opressor.

Eduardo de Jesus, entretanto, que também não recebeu uma cobertura ao vivo da Rede Record em seu enterro como o filho do governador, não irá voltar ainda em nosso mundo.

E mais Eduardos de Jesus continuarão a morrer seja por meio da força policial, das leis, ou dos próprios cristãos, se estes comemorarem a ressurreição de Jesus, mas ainda continuarem lavando as mãos diante do sofrimento do próximo assim como Pôncio Pilatos fez dois mil anos atrás.

Que o Espírito Santo nos ajude a olharmos para todos à nossa volta.

Foto: Reprodução/Facebook
 
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