terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Dom Celso, a sexualidade e Cristo que sofre em nós


Foto: Grupo Transformar

Estou lendo agora o livro "Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns - Pastor das Periferias, dos Pobres e da Justiça", organizado pelo professor Waldir Augusti e o padre Ticão, da paróquia São Francisco de Assis do Emerlino Matarazzo, da Diocese de São Miguel Paulista. 

A obra conta com 55 depoimentos e uma apresentação do teólogo Fernando Altenmeyer sobre o hoje arcebispo emérito de São Paulo, que comemorou 94 anos de idade no ano passado. O livro lançado em 2015 teve mais um lançamento na semana passada, durante o 29º Curso de Verão na PUC-SP.

Um dos depoimentos me chamou a atenção pelo caráter atual. Vivemos tempos em que as igrejas cristãs procuram se colocar no lugar do próximo, longe do preconceito e de fronte com a opressão, por meio da palavra ativa ("dabar") em que Deus se fez entre nós. Entretanto, mais de dois milênios depois, cristãos conseguem sequer enxergar os oprimidos que estão diante de si na exclusão social, étnica e de gênero do mundo em que vivemos.

É neste contexto que Dom Antonio Celso de Queiroz, um dos bispos auxiliares de Dom Paulo, fala sobre como o colegiado de bispos, formado pelo então arcebispo, enxergava a questão da sexualidade na época. Verdadeiros amigos e irmãos, olhavam do mesmo modo a sociedade, da qual a Igreja jamais deve fingir de que não faz parte. "Se hoje ainda existe esse preconceito e esta condenação, imagine naquele tempo."

***

“Dias desse, li uma reportagem onde alguém publicou uma foto de um transexual crucificado. Achei interessante observar que em muitos lugares essa atitude foi considera blasfêmia. Ora, se a pessoa está sofrendo, é Jesus Cristo que sofre. Ele mesmo nos disse. Não fomos nós que inventamos: ‘quando alguém tem fome, está sofrendo, sendo perseguido, preso, sou Eu que estou ali’ (Mt 25, 35-40). 
Vejam bem, que melhor expressão de sofrimento do que a perseguição, o preconceito as dores e o desamparo a que são condenados esses nossos irmãos e irmãs. Se para nós, que a sociedade considera como “definidos sexualmente” as coisas não são fáceis, podemos imaginar que para os demais considerados como ‘fora do padrão’. Eu sei o quanto sofrem. Muitas vezes pude atender homossexuais, principalmente rapazes. E era uma época em que os padres eram muito exigentes e até mesmo intransigentes. Não compreendiam o sofrimento dessas pessoas; tudo era pecado.
Nós já tínhamos uma visão diferenciada sobre estas questões. Certa vez atendi um jovem que estava com dúvidas sobre sua sexualidade. Conversei muito com ele, dei algumas orientações e ele foi embora. Muito tempo depois ele voltou a me procurar e me disse: ‘nem sei como dizer ao senhor o que eu fiz’. Eu disse a ele que falassem sem ressalvas, estávamos ali para conversar. E ele me contou que depois da conversa que tivemos, ficou pensando que eu havia dito aquelas coisas porque era padre e tinha mesmo que dizê-las. E resolveu procurar um médico. Depois de muita conversa com o médico, foi orientado por ele, caso fosse cristão, a procurar um padre: “muitos deles compreendem bem a realidade que você vive e podem ajuda-lo. Eu soube que aqui em Campinas tem um padre muito bom para conversar sobre isso. E o padre era o senhor. Então aqui estou eu.’ 
Estou falando disso para apontar a falta de respeito que existe para com nossos irmãos e irmãs. A imensa maioria das pessoas que os condenam, nada fazem diante da morte de milhões de seres humanos que não tem o que comer, que moram jogados nas ruas, que são condenados a viverem sobre a mais penosa opressão. Isso é reflexo de uma sociedade excludente que se julga capaz de definir o que é certo e errado, bom ou ruim, bem ou mal. Se hoje ainda existe esse preconceito e esta condenação, imagine naquele tempo. Nós tínhamos, repito, uma visão diferente e acolhedora.”

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Como a Prefeitura de SP não se importa com a Igreja e com os sem-teto


Vigário denuncia roubo de pertences de moradores de rua pela guarda civil, mas nada é feito. 

Funcionários de limpeza da cidade passam todos os dias nas ruas, há meses, para jogar no lixo o pouco que os irmãos de rua possuem, sob proteção policial. Prefeitura nega e até remédio de soropositivo já foi levado.

Vídeo publicado ontem (25) no Facebook, pelo padre, mostra ação. Foto: Reprodução/Facebook

Não é a toa que vigário da Pastoral do Povo da Rua, Julio Renato Lancellotti, recebeu na última terça-feira (26) uma das Medalhas São Paulo Apóstolo concedidas pela arquidiocese em cerimônia no Mosteiro São Bento a diversas personalidades. No mesmo dia, mais cedo, ele publicava no Facebook vídeo (assista aqui) que mostrava funcionários de limpeza da prefeitura jogando no lixo pertences de moradores de rua, sob a vigilância da Política Militar, que estava no outro lado da rua.

"Acho que eles só serão deixados em paz se conseguirem amarrar seus pertences a uma bicicleta", comentou a internauta Rita Machado, com ironia, em relação a uma das bandeiras da gestão Haddad, a instituição de ciclovias pelo município. Uma delas, a colocada embaixo do Minhocão e que teve destaque na mídia por conta de atropelamento de idoso, obrigou os sem-teto que viviam lá irem para outro local, quando foi instituída.

"Atenção . RAPA no Belém . Sub prefeitura MOOCA , Covardia ,no frio levam tudo !", disse Lancellotti, publicando o vídeo e marcando o perfil do Facebook do secretário Eduardo Suplicy e de outras autoridades e veículos jornalísticos alternativos, como costuma fazer em seus alertas sobre o que acontece.

"Voltamos agora da rua , com frio e chuva os saqueados pelo Rapa se aquecem nesta fogueira , pois seus cobertores foram levados pela prefeitura de S.Paulo", é um exemplo das constantes reclamações com fotos, esta do dia 24, mostrando o que acontece. Em um desabafo, no mesmo dia, o padre fala sobre a falta de respostas:

"Todos os dias a GCM ataca moradores de rua em São Paulo , sempre comunico a Secretaria Municipal de Direitos Humanos responsável pelo Atendimento ao povo da rua , as respostas são sempre as mesmas ,de que são fatos pontuais , que não é a orientação do Comandante nem do Prefeito De quem é então ??
As sub-prefeituras fazem o RAPA com apoio da GCM que agride e trata com crueldade ,a responsabilidade é de quem ???"

O portal A Igreja Paulistana tem acompanhado o problema desde que publicou editorial se posicionando sobre o "rapa" dos pertences em que lembrava que, sim, "os moradores de rua também são filhos de Deus". Em entrevista ao site, em maio, sobre o assunto, Lancellotti declarou que a prefeitura de SP é é "extremamente intolerante e extremamente higienista". A assessoria de secretaria de direitos humanos e cidadania afirmou, ao portal, que não iria se posicionar sobre o assunto. Nada acontece.

Encarregado de tentar conseguir ao menos posicionamentos da administração Fernando Haddad em relação às denúncias da Pastoral do Povo da Rua, entrei em contato com o assessor da pasta, o qual não publico o nome para não o expor. As conversas salvas por e-mail são publicadas abaixo para mostrar como se reproduz essa falta de respostas por meio da assessoria da Gestão Haddad.

***

23/08 - 08:49

"Bom dia x, tudo bem?

Irei dar hoje por volta das 13h uma nota sobre reclamação da Pastoral do Povo da Rua. Segundo o padre Julio Lancellotti, um sem-teto com AIDS teve remédio e roupas de frio levadas pela GCM recentemente na praça 14-Bis.

As reclamações em relação ao chamado "rapa" dos moradores de rua são frequentes e o vigário segue marcando no Facebook o perfil do secretário e fazendo reclamações dos casos, que têm até fotos e vídeos mostrando ações da GCM de levar os pertences dos moradores de rua.

A posição da secretaria é ainda de que nada está acontecendo? As denúncias da leva dos únicos pertences que essas pessoas são levadas a sério pela secretaria e pela prefeitura?

Agradeço se eu tiver retorno para poder colocar na nota.

Muito obrigado"

11:50

"Bom dia Arthur
Você pode me passar estas fotos e vídeos?
Obrigado"

23:40

"Boa noite. Não pude ficar hoje no portal e acabei não publicando mas, infelizmente, logo deverá acontecer algo parecido.

Posso sim, vou procurar na página do vigário, mas você pode me ajudar a obter um posicionamento oficial da secretaria e da prefeitura?

Atenciosamente"

24/07 - 11:30

"Bom dia Arthur

É claro que a secretaria se posiciona oficialmente sobre o caso, mas para isto é importante eu ver as fotos, de preferência o vídeo.

O secretário Suplicy, inclusive, já andou conversando com o padre Julio.

Obrigado "

16:01

"Não procurei as fotos e vídeos ainda, mas a secretaria não possui um posicionamento sobre as constantes reclamações da pastoral? O padre liga quase todo o dia para o celular do secretário. Por isso o meu questionamento sobre o a posição da secretaria e a prefeitura.

Atenciosamente"

16:13

"Arthur

Estou querendo lhe ajudar. E não quero lhe dar uma resposta burocrática.

E para não lhe dar uma resposta burocrática, a secretaria precisa se posicionar sobre um fato concreto. Você disse que havia fotos e vídeos.

Se for para emitir um posicionamento sobre reclamações genéricas, a resposta será igualmente genérica, percebe? E creio que não é isto que você quer.

Sabendo que o Padre Julio fala constantemente com o Suplicy, suponho que você saiba o teor das conversas.

Me ajude a mostrar um caso concreto, de preferência documentada, de mal procedimento da GCM, que eu lhe ajudarei com todo o prazer a fazer com que a secretaria se posicione.

Obrigado"

16:18

"Ok. Não fiquei no site nem ontem e nem hoje. Te mandarei as fotos e vídeos. Mas, mesmo assim, gostaria de já ter obtido uma resposta não genérica para as constantes reclamações e relatos. Te manderai o material.

Obrigado"

27/07 - 12:34

Luciano, seguem exemplos de fotos e reclamações: https://www.facebook.com/groups/599094893564070/permalink/599124016894491/

https://www.facebook.com/observatoriopovodarua/photos/a.966200386744895.1073741828.965860910112176/984638491567751/?type=1
https://www.facebook.com/observatoriopovodarua/photos/a.966200386744895.1073741828.965860910112176/1006155752749358/?type=1

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=845375292225993&set=a.112778108819052.19520.100002605890770&type=1

https://www.facebook.com/groups/599094893564070/permalink/599470903526469/

https://www.facebook.com/observatoriopovodarua/posts/984618294903104

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/05/video-mostra-pm-e-gcm-apreendendo-carroca-de-moradora-de-rua-em-sp.html

Abaixo-assinado: https://secure.avaaz.org/po/petition/Prefeitura_de_Sao_Paulo_Acabar_com_o_RAPA/?nuyKCgb

A secretaria e a prefeitura continua com o seu posicionamento de negar a ocorrência das ações? Para elas, o caso não merece respostas e uma averiguação do trabalho da GCM?

Aguardo um retorno. Atenciosamente"

11/08 - 17:46

"Luciano, eu devo entender que a prefeitura e a secretaria não querem comentar as denúncias que mandei o link por e-mail? Este é o posicionamento correto para eu colocar nas próximas reportagens?

Há algum posicionamento sobre esse depoimento em vídeo com o padre Lancellotti, sobre a carroça roubada pela GCM?

https://www.facebook.com/joseadrianodesouzaalves.alves.5/posts/416069288597818

Pergunto novamente porque estou preparando uma reportagem referente à esta falta de posicionamento em relação às reclamações contra o "rapa" feitas pela Igreja Católica de São Paulo.

Por favor, aguardo retorno.

Obrigado"

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Rapper católico de São Miguel faz música sobre progressismo do papa

Foto: Arquivo Pessoal
"Tio Chico é contra redução da maioridade penal/ Nos orienta que o capitalismo pra humanidade é um mal/ Amar nos dias de hoje é ato revolucionário/ Então põe Cristo na sua vida, não seja reacionário." (Música Cristã Combativa - Orlando Jay e MC Fpianes)

Este é um trecho de um rap muito interessante sobre o combativo papado de Francisco que chegou até mim, por divulgação do próprio cantor, e que achei interessante compartilhar aqui neste espaço. Orlando Jay diz fazer Teologia do Gueto por meio de seus versos ritmados.

"É uma maneira de levar Deus para a periferia de uma maneira ecumênica, sem placa de Igreja, e mostrar o Jesus revolucionário, que enfrentou o opressor mas não pegou em armas, como os Zelotes", diz em referência a movimento revolucionário da época contra o Império Romano.

Jay, 33, é da Diocese de São Miguel Paulista e canta Rap desde os 15 anos. "Estou divulgando meu trabalho de levar Jesus e as palavras do Papa Francisco as pessoas. Alertei sobre as palavras do pontífice pró-Palestina, LGBT's e a simplicidade de Maria, a mãe de Cristo", afirma o rapper ao blog.

Além de explorar o estilo pouco conhecido do rap católico, Jay atua nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) de São Miguel  e na Pastoral Carcerária da Diocese de Guarulhos. Usa a cultura Hip Hop e seu elemento musical para "levar o Evangelho e denunciar os males da sociedade."

Essa atuação, entretanto, segundo ele, não é sempre bem aceita dentro da Igreja Católica. "Senti na pele o que Dom Helder (Câmara, servo de Deus e ex-arcebispo de Olinda e Recife) dizia que, quando questionamos, somos (acusados de sermos) comunistas, principalmente em eventos maiores, em comunidades grandes e nomeadas".

Jay tem ainda participações internacionais com rapper's bolivianos, salvadorenhos e mexicanos, além de participações em remixes de DJ's católicos estadunidenses. A música foi feita junto com o amigo e rapper paraguaio, MC Fpianes, e lançada no dia 24 do último mês.

"Todo MC que tem o palco como compromisso e campo de batalha contra os opressores, é um 'teólogo do gueto', que resume 73 livros, 1328 capítulos e 40030 versículos da Bíblia, independente de ser Cristão ou não, mesmo ateus ou agnósticos, no amar ao próximo!"

Ouça abaixo a música e também acompanhe pela letra:


Fpianes Feat. Orlando Jay - Mudar de Vida

Se o papa é guiado pelo Espírito Santo;
Porque então que o questionam tanto;
E a fita da infalibilidade papal;
Que o pontífice nunca erra etc e tal;
Sem factóides e fósseis acepcionários de lado;
É uma benção reconhecer a Palestina como Estado;
E beatificar duas irmãs de lá;
E ver em solo estéril frutos da fé cristã brotar;
Hora de rever que pro casal de segunda união;
Comungar o Deus vivo não é subversão;
Nítido ver o catolicismo mudando;
Ao ver um transexual adentrar o Vaticano;
Reveja seu conceito de família desequilibrada;
Opção sua deixar a TV desligada;
Mas digo a vc, de nada adianta;
Se o sexismo e a homofobia vc não arranca;
Lembre-se de Maria grávida antes do casamento;
Pela lei de Moisés seria apedrejamento;
José então a responsa assumiu;
O bochixo dessa fita só quem viveu viu;
Receber Raul Castro em visita;
Demonstra que não temos treta com ateu e comunista;
Medelin, 68, Puebla, 79;
Oscar Romero beatificado prova que valeu o corre;
Militares impediram, Nobel da Paz não ganhou;
Mas Dom Helder com os santos se imortalizou;
Tio Chico é contra redução da maioridade penal;
Nos orienta que o capitalismo pra humanidade é um mal;
Amar nos dias de hj é ato revolucionário;
então põe Cristo na sua vida, não seja reacionário.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Facebook da Região Ipiranga chama paróquia pelo apelido “Santa Rica”



A página no Facebook da Região Episcopal Ipiranga da Arquidiocese de São Paulo divulgou nesta quarta-feira (20) a festa da padroeira de paróquia, que irá acontecer no próximo dia 22.

A rede, entretanto, chamou-a em parte do post de "Santa Rica".

Foto: Montagem/Reprodução

"Santa Rica" é como é chamada por padres a paróquia Santa Rita de Cássia, do Setor Vila Mariana. Isso porque, segundo alguns sacerdotes, a sua arrecadação do dízimo seria alta em relação a outros locais.

Atualmente, quem administra a "Santa Rica" é o padre Jorge Bernardes, que veio da igreja Santa Cândida. A paróquia da zona sul de São Paulo teve transição de padres turbulenta, com protesto de fiéis, no ano passado.

terça-feira, 28 de abril de 2015

CNBB: Existe restrição em mencionar ligação com Leonardo Boff?


Foto: Reprodução/cnbb.org.br

Os bispos brasileiros estiveram reunidos entre os dias 15 e 26 desde mês em Aparecida (SP) para realizar a sua 53º Assembleia Geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Os últimos dez dias foram usados para os religiosos votarem e elegerem os novos dirigentes da conferência.

Um deles é Dom Severino Clasen, bispo da Diocese de Caçador, em Santa Catarina.

Ele foi reeleito para continuar à frente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato, a comissão que cuida da organização dos fiéis, os chamados leigos, membros do Povo de Deus que não integram o clero.

Clasen nasceu em Petrolândia, também em Santa Catarina, em 1954. Foi ordenado padre em 1982 após estudar filosofia e teologia, como de praxe. For ordenado bispo em 2005 quando assumiu a Diocese de Araçuaí (MG), antes de se mudar para Caçador em 2011.

Dom Severino é franciscano e fez seus estudos na época do seminário no Instituto Teológico Franciscano, de Petrópolis (RJ).

A OFM (Ordem dos Frades Menores) e o ITF possuem ligação com acontecimento que teve destaque não só na Igreja do Brasil, mas no mundo. Nos anos 80, o teólogo e professor Leonardo Boff publicou o livro "Igreja: Carisma e Poder" e foi condenado a não se manifestar por um ano em público pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger.

Boff acabou depois largando a batida para não receber uma nova sanção do presidente da antiga Inquisição e futuro Papa Bento XVI. A obra tornou o ex-frade um expoente da teologia da libertação após discutir a necessidade de uma Igreja mais crítica a desigualdade produzida pelo capitalismo e que tenha o poder menos centralizado no clero.

Informações

Entretanto, o instituto ligado a toda essa história não foi mencionado na notícia sobre a reeleição do bispo referencial do laicato.

O site da CNBB foi publicando notícias ao longo dos dias da Assembleia conforme os novos presidentes iam sendo eleitos. A nota sobre Dom Severino é a única da série de notícias que não informa onde o bispo estudou teologia e filosofia, no caso, na mesma época em que Boff era professor do ITF.

Entretanto, cita que o bispo cursou uma pós-graduação em administração.

Hoje, o teólogo da libertação Leonardo Boff é palestrante e escritor de renome no mundo. Participa de grupo de reforma da ONU (Organização das Nações Unidas) e forneceu material para ajudar o Papa Francisco a terminar a sua encíclica que deve ser publicada em junho.

Procurada pelo blog, a CNBB afirmou, por meio de sua assessoria, que os currículos do bispo são divulgados "de acordo com as informações que eles nos passam quando nomeados."

Segundo a nota, "no currículo de dom Severino, só constava estudo em Teologia e Filosofia, sem citar a instituição."

A biografia do bispo no site da Diocese da Caçador, por sua vez, informa onde ele estudou teologia.

A notícia sobre ele da CNBB, também por outro lado, era mais incompleta que a das outras nomeações, em geral. Não mencionava, por exemplo, quantas votações foram necessárias para a sua reeleição.

Outro bispo, Dom Jaime Spengler, eleito para a Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e Vida Consagrada, ainda teve mencionado normalmente em nota seus estudos no ITF.

A possível intenção de alguém de omitir ligação indireta com Leonardo Boff, de qualquer forma, não deixa de ser interessante de ser analisada em tempos em que a CNBB é taxada de "comunista" e apelidada de "CNdoB".

Dom Severino, a propósito, é conhecido como um bispo "neutro" nos bastidores eclesiais: nem muito tradicional, nem muito progressista e com bom diálogo entre os leigos.

Leonardo Boff, alheio a tudo isso, continua a emitir suas opiniões sobre os acontecimentos eclesiais.

"A CNBB sempre entendeu que a Igreja possui uma dupla missão: uma especificamente religiosa e outra eminentemente social", disse ele nesta terça-feira (28), em seu blog, antes de reproduzir nota publicada pela nova direção da conferência dos bispos.

À noite, o teólogo terá entrevista concedida ao programa Espaço Público exibida às 22h na TV Brasil.

Leia também: Veja quem são os 20 bispos eleitos na 53ª Assembleia Geral da CNBB

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma breve visita ao Cimento da Bresser


"Refugiados Urbanos" pode parecer para alguém apenas uma expressão usada pelo vigário do Povo da Rua, Julio Lancellotti, mas é na verdade uma descrição precisa da situação de alguns Filhos de Deus esquecidos pelos irmãos.


Não fui desta vez visitar irmãos de rua para fazer um relato jornalístico, mas apenas como um irmão que visita outro irmão. Entretanto, achei que valeria a pena compartilhar o pouco do que foi registrado no blog.

O lugar é conhecido como "Cimento da Bresser", por ficar no bairro e perto de um depósito de cimento.

Fui nesta sexta-feira (17) com o padre Julio Lancellotti, vigário da Pastoral Povo da Rua, e com a Marta e o Ederson do Bompar (Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto), os quais tive o prazer de conhecer hoje, visitar uma irmã de rua abrigada no local.

O vídeo abaixo mostra um panorama do acampamento na beira da Radial Leste:



Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
A irmã está grávida de quatro meses. Ainda não fez um ultrassom, mas acredita que irá ter uma menina. Vive em um local, conforme a foto acima, arrumado com mais cuidado e carinho do que em muitas casas.

Há o risco, entretanto, segundo Julio Lancellotti, de a prefeitura derrubar o barraco e querer encaminhar ela e o companheiro com quem vive para algum hotel ou outro local. A Pastoral do Povo da Rua tem tentado evitar que coisas do gênero aconteçam.

O secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy, já foi visitar o local pessoalmente assim como já fez com irmãos de rua pela cidade, mas as visitas não têm resultado em mudanças concretas.

Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
O irmão da foto acima - que permitiu que a sua situação fosse registrada - passou por uma traqueostomia e está com problemas na vista. Precisa continuar recebendo auxílios médicos e será ajudado pela Pastoral do Povo da Rua nesta questão.

Um mutirão de limpeza, ainda a ser confirmado, irá ser feito pela pastoral no acampamento, que não tem recebido funcionários de limpeza da prefeitura.

Foto: Arthur Gandini/IP
A situação dos irmãos de rua mostra, como dito no subtítulo, que o termo "refugiados urbanos" não é uma mera expressão.

Os sem-teto sobrevivem a uma cidade que não lhes deixa espaço e não os acolhe. O Paulistana tem noticiado nos últimos dias como a GCM (Guarda Civil Metropolitana) e Polícia Militar têm, como acontece há anos, mas com maior intensidade, reprimido moradores de rua de locais e levado seus poucos pertences embora, como se fossem lixo.

O comentário de uma moradora do local, sobre o tratamento que todos costumam receber da prefeitura, chama a atenção:

— Gente que nasceu em berço de ouro vem aqui. Por que eles tem que pisar (na gente)?

Julio Lancellotti afirmou ter sido ofendido por secretário da subprefeitura da Mooca na última semana. Censo da Prefeitura que iria verificar a quantidade de moradores de rua em São Paulo deveria ter tido a primeira parte, quantitativa, divulgada no último dia 15.

Encomendado por R$ 1 milhão à Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), não há mais previsão de publicação. Chuvas recentes teriam feito com que irmãos de rua mudasse de lugar e atrapalhado os resultados.

Lancellotti fez críticas em sua página no Facebook ao adiamento, mas as coisas seguem como estão.

Veja mais fotos do Cimento da Bresser:

Foto: Arthur Gandini/IP
Foto: Arthur Gandini/IP
Leia aqui mais notícias sobre os irmãos de rua

sábado, 11 de abril de 2015

O significado por trás de convocar um Jubileu Extraordinário

Papa Francisco dá os seus sinais, mas é preciso prestar atenção para percebê-los. Foto: Ansa

A convocação oficial de um Jubileu pelo Papa Francisco em caráter extraordinário - ou seja, fora do ano que deveria ocorrer - pode parecer a primeira vista apenas mais um evento católico romano tradicional do Vaticano. O último ocorreu nos anos 2000.

Os jubileus costumam ser comemorados a cada 25 anos desde o ano de 1300. Foi nesta data que ocorreu o primeiro, quando o Papa Bonifácio VIII convocou cristãos para visitarem em massa os túmulos de São Pedro e São Paulo.

O tema do último jubileu, lançado oficialmente neste sábado (11), chama-se "misericórdia do Senhor". Parece uma reflexão mais espiritual do que prática, comum na Igreja. Mas quando se tenta enxergar por trás da ações, é possível entender o que teólogo Paulo Suess disse para mim na entrevista publicada no Paulistana na última semana.

O sacerdote, ao explicar o porquê de não acreditar que Francisco é populista (entenda como alguém que joga com todos os lados e fala o que todos querem ouvir, para se manter no poder), disse-me que o pontífice latino-americano não apenas fala, mas faz o que diz, o que não é o caso de um populista.

"Ele dá sinais que às vezes são mais fortes que os próprios atos", disse Suess.

O Jubilei Extraordinário da Misericórdia foi criado no ano em que se comemora os 50 anos do encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II.

A reunião mundial de bispos e outros religiosos, que ocorreu entre 1962 e 1965, procurou dar novos ares à Igreja Católica Romana e atualizá-la ao mundo. Antes deles, padres celebravam as missas em latim e de costas para os fiéis, por exemplo.

A principal mudança foi que o concílio colocou a Igreja ao lado dos pobres, como Cristo esteve em sua caminhada.

Houve oposição na época para a publicação dos documentos e conclusões do concílio e ainda há hoje para eles serem seguidos.

Padres adorariam talvez rezar missas em latim e conheço um sacerdote que utilizou a necessidade de uma reforma na paróquia para mudar de lugar a estátua da santa padroeira e colocá-la atrás do altar, centralização pré-conciliar no ambiente eclesial.

A bula de convocação do Jubileu, "Misericordiæ Vultus (Rosto de Misericórdia)", faz referência à expressão "Remédio da Misericórdia" utilizada por São João XXIII, o papa que teve a coragem de convocar o concílio.

O Vaticano II é citado na bula como algo que derrubou as muralhas da Igreja, “que por muito tempo, mantiveram a Igreja fechada em uma cidadela privilegiada”.

Este não é o primeiro dos sinais de Francisco. Um ano após sua eleição, por exemplo, ele tornou cardeal um bispo sem idade para poder votar em um próximo conclave, Loris Francesco Capovilla.

Arcebispo emérito de Loreto, Capovilla, na época com 99 anos de idade, foi amigo e conselheiro de São João XXIII durante o Vaticano II. "Você tem a voz jovem", brincou Francisco por telefone com o novo cardeal, que ele sabe que não poderá votar no próximo conclave e, provavelmente, nem estará vivo.

Em abril de 2014, Francisco expôs na Praça de São Pedro quadros de João XXIII e João Paulo II. Os dois pontífices foram canonizados na mesma cerimônia, com suas imagens de cada lado.

São João Paulo II foi responsável por combater o avanço do ideário comunista e ateu na Europa, a extrema-esquerda, mas também foi quem desarticulou bispos e padres na América Latina que apenas queriam uma Igreja próxima aos pobres.

É a mistura de duas figuras diferentes que deu uma significação de conciliação entre lados conflituosos por trás do ato de Francisco.

A chamada "porta santa" da Basílica Vaticana deve ser aberta no dia 8 de dezembro para inaugurar o Jubileu da Misericórdia. O Papa convida todas as paróquias do mundo a, por meio de uma porta, simbolizarem o mesmo ato.

E para quem também ainda não percebeu, Francisco convida todos a perceberem que a Igreja precisa, sim, avançar.
 
© 2009 Opção Preferencial. All Rights Reserved | Powered by Blogger
Design by psdvibe | Bloggerized By LawnyDesignz Distribuído por Templates